quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Fantastiese

  Não tenho a intenção que meu blog seja altamente popular...ou que ele consiga ser chamativo ou inteiramente peculiar. Não...só quero Tê-lo para começar a escrever algumas coisinhas da minha vida, do meu mundo e de umas experiências pelas quais passei e pelas quais passo...talvez elas sejam interessantes para alguém...mas se não forem, não me impressionarei...no fundo, não me importa...
  Para começar, declaro que Fantastiese é a mesma coisa que " fantástica", só que em africâner, uma língua que é falada na África do Sul e na Namíbia, se não me engano...escolhi a palavra Fantástica porque é como eu me descrevo todos os dias quando acordo, quando me olho no espelho ou quando vou dormir...sou fantástica sim, e ai de você se tentar me convencer do contrário. Sou fantástica não porque sou a mais bonita, a mais inteligente, a mais magra, a mais popular...longe de mim ser qualquer uma dessas coisas, ainda preciso batalhar muito para isso...mas sou Fantástica porque reconheço em mim o dinamismo, o dinamismo de nunca desistir, de me deixar prostrar e, ao mesmo tempo, de ter a capacidade de me levantar quando paro para pensar na minha vida durante um jogo do The Sims....não sou uma pessoa excepcional, não sou boa em muita coisa...mas ao mesmo tempo, tenho uma vontade que me faz querer...e é isso que me faz me achar Fantástica. O fato de eu conseguir ser melhor que eu quando eu mesma me empurro para baixo.
  Resolvi escrever para ver o quanto meu processo será doloroso, engrandecedor, ou até mesmo, engraçado...afinal, por que não engraçado? Toda mudança pode ser catastrófica, perfeita ou engraçada...afinal, bem, afinal, é uma mudança...dã!
    Não sei como terminar, afinal, concluir não eh meu forte. Meu forte mesmo é começar, como toda boa ariana...haushaushuahsuahusha. Então concluo com um conto, um conto de uma autor Fantástico...acho que terminarei sempre assim...com um conto...é, acho que são bons finais. :)


                                                                          BRINCADEIRA
                                                                         (Anton Tchekhov)
      Um claro dia de inverno... O frio é forte e seco de estalar, e Nádenka, que eu levo pelo braço, fica com os cachos das fontes e o buço no lábio superior orvalhados de prata cintilante. Estamos no cume de um morro alto. Diante dos nossos pés, até a planície, lá embaixo, estende-se um declive escorregadio e brilhante na qual o sol se mira como um espelho. Ao nosso lado está um trenó pequenino, forrado de pano vermelho-vivo.

- Deslizemos até embaixo, Nadêjda Petrovna! - imploro eu. - Só uma vez! Garanto-lhe, ficaremos sãos e salvos!

     Mas Nádenka tem medo. Toda essa extensão, desde as suas pequeninas galochas até o fim da montanha de gelo, se lhe afigura como um terrível abismo de profundidade imensurável. Ela fica tonta e perde o fôlego. Só de olhar lá para baixo, quando eu apenas lhe proponho sentar-se no trenó - que terá então se ela arriscar despenhar-se no precipício? Ela morrerá, enlouquecerá!

- Eu lhe suplico! - digo eu. - Não tenha medo! Compreenda, isso é fraqueza, é covardia!

     Nádenka cede, finalmente, e eu vejo pelo seu rosto que ela cede com perigo da própria vida. Acomodo-a, pálida e trêmula, no trenó, sento-me, enlaço-a com o braço e junto com ela precipito-me no abismo.

     O trenó voa como uma bala. O ar cortado chicoteia o rosto, silva nos ouvidos, bate, belisca raivoso, até doer, quer arrancar a cabeça dos ombros. A pressão do vento tolhe a respiração. É como se o próprio diabo nos tivesse agarrado com as suas patas, e, urrando, nos arrastasse para o inferno. Os objetos que nos cercam fundem-se num só longo risco, que corre vertiginoso. Parece, um instante mais, e estaremos perdidos!

- Eu te amo, Nádia! - digo eu a meia voz.

     O trenó começa a deslizar mais devagar, mais devagar, os uivos do vento e os zumbidos das lâminas do trenó já não são tão terríveis, a respiração já não é tão ofegante, e, finalmente, chegamos ao fim. Nádenka está mais morta do que viva. Está pálida, mal consegue respirar... Eu a ajudo a levantar-se.

- Nunca mais farei isto - diz ela, encarando-me com os olhos dilatados, cheios de terror. - Por coisa alguma do mundo! Por pouco não morri!

     Logo depois, ela volta a si e já me fita com um olhar interrogador: terei sido eu quem disse aquelas quatro palavras, ou foi apenas uma alucinação dentro do zunido da ventania? Mas eu estou calado diante dela, fumando e examinando com atenção a minha luva.

     Ela toma o meu braço e passeamos longos minutos diante do morro. O problema, visivelmente, não a deixa em paz. Foram pronunciadas aquelas palavras, ou não? Sim ou não? Sim ou não? É uma questão de amor-próprio, de honra, de vida, de felicidade, uma questão muito importante, a mais importante do mundo. Nádenka perscruta o meu rosto com olhares impacientes, tristes, penetrantes, responde atabalhoadamente, espera que eu fale. Oh, que jogo de emoções neste rosto encantador, que jogo! Vejo que ela luta consigo mesma, que precisa dizer alguma coisa, perguntar, mas não encontra palavras, está encabulada, amedrontada, embargada pela alegria...

- Sabe duma coisa? - diz ela, sem olhar para mim.

- O quê? - pergunto eu.

- Vamos mais uma vez... deslizar pelo morro.

     Subimos para o cume, pela escada. De novo faço Nádenka, pálida e trêmula, sentar no trenó, de novo nos despencamos no precipício medonho, de novo uiva o vento e zunem as lâminas, e de novo, quando o vôo do trenó está no auge do ímpeto e da zoeira, eu digo a meia voz:

- Eu te amo, Nádenka!
  
    Quando o trenó se detém, Nádenka lança um olhar para o morro que acabamos de descer voando, depois perscruta longamente o meu rosto, escuta, atenta, a minha voz indiferente e calma, e toda ela, toda, até mesmo o regalo de peles e o capuz, toda a sua figurinha, exprime extrema perplexidade. E no seu rosto está escrito:
   "Mas o que é que está acontecendo? Quem pronunciou aquelas palavras? Foi ele, ou foi engano dos meus ouvidos?"

    Esta incerteza a perturba, a impacienta. A pobre menina não responde às minhas perguntas, franze a testa, está prestes a romper em choro.

- Não preferes ir para casa? - pergunto eu.

- Mas eu... eu gosto destas... descidas - diz ela, enrubescendo. Não quer deslizar mais uma vez?

     Ela "gosta" destas descidas, e no entanto, sentando-se no trenó, ela, como das outras vezes, fica pálida, ofegante de medo, trêmula.

     Descemos pela terceira vez, e eu vejo como ela fita o meu rosto, como observa os meus lábios. Mas eu aperto o lenço contra a boca, tusso, e quando chegamos ao meio do declive, deixo escapar:

- Eu te amo, Nádia!
      E a charada continua charada! Nádenka se cala, está pensando... Acompanho-a para casa, ela procura andar mais devagar, atrasa o passo, espera sempre que eu lhe diga aquelas palavras. E eu vejo como sofre sua alma, como ela tem que se esforçar para não dizer:

"Não pode ser que tenha sido o vento! E eu não quero que tenha sido o vento quem falou aquilo!"

     No dia seguinte de manhã, recebo um bilhetinho: "Se o senhor vai ao morro hoje, venha me buscar. N." E desde essa manhã, comecei a ir com Nádenka ao morro, todos os dias e, voando encosta abaixo, no trenó, eu pronuncio, cada vez, a meia voz, as mesmas palavras:

- Eu te amo, Nádia!

     Logo Nádenka acostuma-se a esta frase, como ao vinho e à morfina. Não pode viver sem ela. É verdade eu voar montanha abaixo lhe dá medo, como antes, mas já agora o medo e o perigo adicionam um encanto especial às palavras sobre o amor, as palavras que, como dantes, constituem uma charada e oprimem a alma. São sempre os mesmos dois suspeitos: eu e o vento... Qual dos dois lhe declara o seu amor, ela não sabe, mas, ao que parece, isto já não lhe importa mais; não importa o vaso em que se bebe, importa ficar embriagada!

     Um dia, fui até o morro sozinho; misturei-me à multidão e vejo como Nádenka chega até o sopé, como me procura com os olhos... E depois, timidamente, ela sobe os degraus... Ela tem medo de ir sozinha, oh, quanto medo! Está pálida como a neve, treme e vai, como se fosse para o cadafalso, mas vai, vai sem olhar para trás, com decisão. Pelo visto, ela resolveu, finalmente, tirar a prova: será que se farão ouvir aquelas palavras estranhas, quando eu não estiver junto? E vejo como ela, lívida, com a boca entreaberta de horror, toma assento no trenó, fecha os olhos, e, despedindo-se para sempre do mundo, o põe em movimento... "zzzzzz..." zunem as lâminas. Ouvira Nádenka aquelas palavras? Não sei... Vejo apenas como ela se levanta do trenó, exausta, fraca. E vê-se pelo seu rosto que nem ela mesma sabe se ouviu alguma coisa ou não. O pavor, enquanto ela voava morro abaixo, roubou-lhe a capacidade de ouvir, de distinguir os sons, de entender...

    Mas eis que chega o mês de março, primaveril... O sol torna-se mais carinhoso. O nosso morro de gelo escurece, perde o seu brilho e se derrete, afinal. Acabaram os passeios de trenó. A pobre Nádenka já não tem mais onde ouvir aquelas palavras, e nem há quem as pronuncie, pois o vento não se ouve mais, e eu me preparo para voltar a Petersburgo - por muito tempo, quiçá para sempre.

    Uma vez, pouco antes de partir, uns dois dias, estava eu sentado, ao crepúsculo, no jardinzinho, separado do pátio onde mora Nádenka por uma cerca alta de madeira. Ainda faz bastante frio, debaixo do lixo, ainda há neve, as árvores ainda estão mortas, mas já cheira à primavera, e, preparando-se para a noitada, as gralhas fazem grande algazarra. Aproximo-me da cerca e espio pela fresta. E vejo como Nádenka sai para os degraus e fixa o olhar tristonho e saudoso no firmamento... O vento da tarde sopra-lhe no rosto pálido e desanimado... Ele lembra-lhe aquele outro vento, que uivava lá no morro, quando ela ouvia aquelas quatro palavras, e seu rosto fica triste, triste, e pela face desliza uma lágrima... E a pobre menina estende os braços, como se implorando ao vento que lhe traga aquelas palavras mais uma vez. E eu, esperando o vento favorável, sopro a meia voz:

- Eu te amo, Nádia!

     Deus meu, o que se passa com Nádenka! Ela solta um grito, sorri com o rosto inteiro e estende os braços ao encontro do vento, risonha, feliz, tão bonita.

    E eu vou arrumar as malas...

     Isto foi há muito tempo. Agora, Nádenka já é casada; casaram-na, ou foi ela mesma que quis - isto não importa - com um secretário da Curadoria, e hoje ela já tem três filhos. Mas os nossos passeios no morro e a voz do vento trazendo-lhe as palavras "eu te amo, Nádenka", não foram esquecidos. Para ela, isto é hoje a mais feliz, a mais comovedora e a mais bela recordação da sua vida...

    Mas eu, hoje, que estou mais velho, já não compreendo mais, para que dizia aquelas palavras, porque brincava...